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Os Heterónimos da Peçonha

Os Heterónimos da Peçonha

06
Fev22

Das realidades da precariedade

rltinha

Foram oito episódios de podcast, mais de oito horas a ouvir um longo trabalho jornalístico do Fumaça:

SEGURANÇA PRIVADA – EXÉRCITO DE PRECÁRIOS
“Exército de Precários” é o resultado de uma investigação de dois anos no interior da segurança privada em Portugal. Nesta série de oito episódios revelamos um setor de precariedade extrema e violência sistémica, largamente financiado pelo Estado.

Os males do neoliberalismo são plúrimos, muitas vezes subtis, mas nem por isso menos destrutivos. E este conjunto de episódios põe a nu muitos desses males e, acima de tudo, a normalização pela via da banalização de linguagem eufemística, destinada a destituir o factor trabalho do seu valor, e a normalizar a prática do lucro assente na violação dos direitos dos trabalhadores como corolário da evidência prática do admirável mundo novo dos cortes nas folhas de cálculo, isentos de preocupações humanas.

A dada altura são revelados os números dos «ganhos» do Estado com a contratação a privados da prestação de «serviços» (trabalho prestado por pessoas com vínculo de trabalho subordinado por conta de privados e não do Estado, mas suprindo necessidades permanentes do Estado). Na folha de cálculo os valores são vastos.

O que não é mencionado depois é a profunda miséria humana em que assentam esses «ganhos».

Lucra o Estado com:

- a precarização dos vínculos laborais dos trabalhadores;

- a violação de direitos laborais dos trabalhadores tornada possível pela precariedade, que os coloca em posições negociais ainda mais frágeis, quer pela fragilidade do vínculo, quer pela baixa remuneração;

- o sofrimento das famílias desses trabalhadores, pois que as condições de trabalho afectam profundamente a saúde física e mental dos trabalhadores, e a baixa remuneração afecta praticamente todos os aspectos da vida dos respectivos agregados familiares;

- a competição entre privados pelo primeiro lugar nos concursos públicos (erigida nos baixos preços, os quais são possíveis em razão dos pontos anteriores).

Ou seja, o Estado, primeiro responsável pelo bem estar dos seus cidadãos, lucra com a degradação dos trabalhadores que suprem as necessidades permanentes do Estado. «Lucra» com o mal que é feito, com o seu pleno conhecimento (cf. estes 8 episódios, que são públicos e de livre acesso), a um grupo de cidadãos mais vulneráveis do que aquele com o qual o Estado contrata a «prestação de serviços» para supressão de necessidades de mão de obra permanentes do sector público.

Aos profissionais forenses deve pesar a consciência quando entram num tribunal, pois parte de quem lá trabalha todos os dias integra este exército de precários. Gente que é explorada em nome do lucro privado feito em contratação com o Estado.

Aos encantados com as propostas de enriquecimento desta onda libertária designada «Iniciativa Liberal», eis o que defendem: o profundo mal dos muitos para benefício de uns poucos, a «riqueza» que assenta na famosa questão:

«E eu pergunto aos economistas-políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico.» Almeida Garrett

E é pelo inalienável direito do rico a tributar menos que se batem estes bravos.

 

09
Dez21

Das leituras correntes 2

rltinha

20211208 Philip Roth.png

in «O Escritor Fantasma» de Philip Roth (2017, Dom Quixote)

 

Se há coisa que aprecio saber é picuinhice leitora, seja ela a de grandes vultos da literatura ou de gente aleatória. Do bisbilhotar do título que estão a ler os passageiros de transportes colectivos, veraneantes na praia, clientes de cafés, etc, ao destaque de passagens sobre abordagens leitoras em variados textos. Eis um pedaço de vida privada pelo qual realmente me interesso.

 É também por esta inclinação pessoal que tanto aprecio o podcast da Isabel Lucas, no qual estas questões importantíssimas são feitas aos convidados.

 

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