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Os Heterónimos da Peçonha

Os Heterónimos da Peçonha

17
Dez21

Das bitaitadas literárias 7

rltinha

20211217 Roth.jpg

Roth, com todos os amplos defeitos que lhe conhecemos, era um indivíduo com uma capacidade tremenda parar rir e ironizar, para debater assuntos sérios através de meandrada hilariantemente pitoresca, para levar a sério unicamente o que lhe permitia escrever, tudo o resto arrumando em patamares menores.

Era um sacana misógino e egoísta, mas nem por isso o que escreveu perdeu qualquer interesse. Este pequeno livro é um óptimo exemplo do Roth levianamente ruim, autocentrado, e comicamente palerma nos exercícios de efectivação do seu pior.

09
Dez21

Das leituras correntes 2

rltinha

20211208 Philip Roth.png

in «O Escritor Fantasma» de Philip Roth (2017, Dom Quixote)

 

Se há coisa que aprecio saber é picuinhice leitora, seja ela a de grandes vultos da literatura ou de gente aleatória. Do bisbilhotar do título que estão a ler os passageiros de transportes colectivos, veraneantes na praia, clientes de cafés, etc, ao destaque de passagens sobre abordagens leitoras em variados textos. Eis um pedaço de vida privada pelo qual realmente me interesso.

 É também por esta inclinação pessoal que tanto aprecio o podcast da Isabel Lucas, no qual estas questões importantíssimas são feitas aos convidados.

 

07
Out21

Das adjectivações dignas de reparo

rltinha

Sobre Camus e Sartre, refere António Mega Ferreira* que «entenderam-se em torno de uma consciência partilhada do absurdo da vida (...) e, claro, das leituras com que ambos, leitores bulímicos, tinham alimentado a sua curiosidade intelectual».

Curiosa expressão, esta de distúrbio alimentar aplicado à actividade leitora. Do contexto depreende-se que a bulimia será sinónimo de voracidade. Ora, em bom rigor, um leitor animado de bulimia não terá somente um consumo voraz da palavra escrita, pois que a plenitude comparativa implica um regurgitar sofrido e auto-destrutivo, logo depois da ingestão, por tal modo que aquilo que retira da leitura será uma pálida amostra literária face ao seria o proveito de tudo quanto havia lido.

Procurei no google (às vezes o Dr. Google até sabe de cenas). Nada de explicações semânticas, só mesmo o uso da expressão com sentido similar.

Além de absurda, a metáfora é muito infeliz.

*in «Desamigados - ou como cancelar amizades sem carregar no botão» (2021, Tinta da China)

08
Set21

Das bulas que justificam bulas com decreto de excomunhão

rltinha

2021-09-08 Bertrand.jpg

Deparei-me com este segmento numa mensagem electrónica periódica da Bertrand (a qual abria com a injúria de me sugerir a aquisição do novo livro de Miguel Sousa Tavares).

A ideia de biblioterapia não é nova, mas este exemplo é todo um tratado de urgência em expulsar da Ordem dos Farmacêuticos Literários o profissional que criou a bula. 

Lobo Antunes pegou num recorte de realidade absolutamente torpe, mesquinho, vil, de uma empáfia criminosa atroz, e deu-lhe a grandeza humana, sublimidade e complexidade que só um excelso ficcionista poderia conceber. 

Todos os campos desta bula resultam de uma edição feita a pensar nas vendas e zero no que um leitor de ficção que tenha uma estrutura encefálica funcional (capaz de mais do que mera sorvedura de enredo) irá retirar da obra.

Façam isto com aquela «literatura» dos sacos de organza, que quem a adquire só quer entreter-se um bocado e não é propriamente um leitor de causas que se bula com bulas e lamente que as bulas com decretos de excomunhão nunca se apliquem a quem merece tal opróbrio.

 

06
Set21

Das bitaitadas literárias 2

rltinha

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A autoconfiança do homem branco é fenómeno antigo com vocação de futuro. Esta «jovem» promessa assim o comprova.

Ungida por uma certa «facção séria»/«fora da norma» de amantes da palavra escrita, cá surge a obra que - e poderei estar em erro, só duvido mesmo muito que esteja - uma mulher da mesma idade não conseguiria fazer editar. Primeiro, por contar com um escrutínio maior sob todas as perspectivas (incluindo a interior), depois, por lhe faltar empáfia bastante, por fim, pela ausência de claque de apoio que para estas coisas «experimentais» reserva crédito aos cavalheiros.

Assim, temos um exercício versejado de desorientação peneirenta feita rumo reservado aos iniciados, seguido de enumerações armadas ao pingarelho em que todas as notas com ideias magníficas à mesa do café surgem compiladas (ora entre vírgulas, ora entre dois pontos, porque vanguarda e as cenas), insuflando uma narrativazita Bolaño série bifana & copo de três a fingir que viu mundo no Portugal dos Pequenitos.

Escrita de adolescência tardia, num onanismo permanente em resposta a um entumescimento de ego que chega a ser embaraçoso testemunhar. Amplo de forma no artifício, preparando uma deflagração com a vacuidade como resultado.

Nas palavras que em pp. 106 se podem ler: «essas reclusões e esses cortes abruptos no discurso nunca enganaram ninguém, tanta mania de ser diferente, shell shockzinho de arrabalde»

22
Ago21

Das bitaitadas literárias

rltinha

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«Onde se mata um português, matam-se logo dois ou três, é como funciona.»

Numa narração de pequena portugalidade comunitária com o suicídio como resposta disseminada às plúrimas afrontas que só conhece bem quem a vive (à vida no interior, nas terras pequenas em que todos se conhecem desde sempre e ao seu futuro traçado pelo preconceito alheio - profecia que raras vezes se não auto-concretiza) Rui Cardoso Martins faz rir entre desgraças singulares que são exemplos-padrão.

«O Cardoso vestia camisa de cornucópias e disse-me que se és muito pobre convém-te saber dar um murro. Os braços eram grossos e vestiu a camisa de cornucópias castanhas e vermelhas entre Setembro e Julho desse ano, e no ano a seguir o mesmo calendário, todos os dias seguidos de dois anos escolares, ao sol e à chuva, a queimar e a gelar, mais as suas cornucópias. Não cheirava mal, só um pouco a velho. Quanto mais surrada, mais brilhante, cornos ocos a vomitarem fruta no estampado da única camisa que tinha.

- Lavo-a ao domingo, respondeu.

Puta de pergunta, Cruzeta, a pior de uma vida, a outra foi quando perguntaste ao anão do circo que idade é que ele tinha.»

De forma directa - distante das aves do paraíso cheias de si e vazias de ideias e/ou direcção, sem deslumbres provincianos (acontecem muito aos cosmopolitas que acham que viram mundo) com estrangeirismos equivocados tanto pelo estrangeiro como pelo idioma que deixaram de dominar devidamente, de pés assentes nesta particular nação, sem armar ao pingarelho como um Saramago de marca branca que dá nomes e contextos bué Europa central para disfarçar (mal) a matarruanice bacoca - enxuta, portanto, e num registo particular que cativa desde o início, é relatada uma tessitura de singulares percursos de uma desgraça maior e colectiva que é isso de se ser Português fora do centro urbano que tudo monopoliza e anula.

Recomenda-se muito a leitura.

19
Ago21

Das alegrias negociais

rltinha

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Ter um item a fermentar na lista de desejos e poder adquiri-lo a metade do preço gera sempre entusiasmo e o sentimento de «maior de sua rua». Assim me senti quando dei pelo simpático preço desta compilação de textos de mulheres notáveis que merecem ser lidas.

Mais um não-ficção que pode seguir de imediato para as leituras correntes.
Sou adulta, posso.

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