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Os Heterónimos da Peçonha

Os Heterónimos da Peçonha

01
Nov22

Das adições ao acervo livresco doméstico 2: «Roteiro Afetivo de Palavras Perdidas» de António Mega Ferreira

rltinha

2022.11.01 Mega Ferreira.jpg

Mega Ferreira a discorrer sobre certos vocábulos pareceu-me demasiado delicioso para não ceder à tentação.

Num tempo de tradução selvagem ora possidónia, ora por omissão de raciocínio, será um conforto ler sobre inclinações pessoais e factóides vários, vertentes em que o autor não usa desiludir.

28
Out22

Das adições ao acervo livresco doméstico: «Três Anéis» de Daniel Mendelsohn

rltinha

2022.10.28 Daniel Mendelsohn.jpg

Depois de ter lido «Uma Odisseia - Um pai, um filho e uma epopeia», um novo ensaio de Daniel Mendelsohn nas novidades editoriais nacionais era mesmo para adquirir sem demoras. Ainda por cima em capa dura em tom amarelo, juntando a boa estética ao literariamente apelativo.
Felizmente o fim-de-semana que agora começa terá uma hora extra para que avance nas leituras de não-ficção e possa encaixar este no futuro próximo da minha degustação leitora.

17
Dez21

Das bitaitadas literárias 7

rltinha

20211217 Roth.jpg

Roth, com todos os amplos defeitos que lhe conhecemos, era um indivíduo com uma capacidade tremenda parar rir e ironizar, para debater assuntos sérios através de meandrada hilariantemente pitoresca, para levar a sério unicamente o que lhe permitia escrever, tudo o resto arrumando em patamares menores.

Era um sacana misógino e egoísta, mas nem por isso o que escreveu perdeu qualquer interesse. Este pequeno livro é um óptimo exemplo do Roth levianamente ruim, autocentrado, e comicamente palerma nos exercícios de efectivação do seu pior.

09
Dez21

Das leituras correntes 2

rltinha

20211208 Philip Roth.png

in «O Escritor Fantasma» de Philip Roth (2017, Dom Quixote)

 

Se há coisa que aprecio saber é picuinhice leitora, seja ela a de grandes vultos da literatura ou de gente aleatória. Do bisbilhotar do título que estão a ler os passageiros de transportes colectivos, veraneantes na praia, clientes de cafés, etc, ao destaque de passagens sobre abordagens leitoras em variados textos. Eis um pedaço de vida privada pelo qual realmente me interesso.

 É também por esta inclinação pessoal que tanto aprecio o podcast da Isabel Lucas, no qual estas questões importantíssimas são feitas aos convidados.

 

07
Out21

Das adjectivações dignas de reparo

rltinha

Sobre Camus e Sartre, refere António Mega Ferreira* que «entenderam-se em torno de uma consciência partilhada do absurdo da vida (...) e, claro, das leituras com que ambos, leitores bulímicos, tinham alimentado a sua curiosidade intelectual».

Curiosa expressão, esta de distúrbio alimentar aplicado à actividade leitora. Do contexto depreende-se que a bulimia será sinónimo de voracidade. Ora, em bom rigor, um leitor animado de bulimia não terá somente um consumo voraz da palavra escrita, pois que a plenitude comparativa implica um regurgitar sofrido e auto-destrutivo, logo depois da ingestão, por tal modo que aquilo que retira da leitura será uma pálida amostra literária face ao seria o proveito de tudo quanto havia lido.

Procurei no google (às vezes o Dr. Google até sabe de cenas). Nada de explicações semânticas, só mesmo o uso da expressão com sentido similar.

Além de absurda, a metáfora é muito infeliz.

*in «Desamigados - ou como cancelar amizades sem carregar no botão» (2021, Tinta da China)

08
Set21

Das bulas que justificam bulas com decreto de excomunhão

rltinha

2021-09-08 Bertrand.jpg

Deparei-me com este segmento numa mensagem electrónica periódica da Bertrand (a qual abria com a injúria de me sugerir a aquisição do novo livro de Miguel Sousa Tavares).

A ideia de biblioterapia não é nova, mas este exemplo é todo um tratado de urgência em expulsar da Ordem dos Farmacêuticos Literários o profissional que criou a bula. 

Lobo Antunes pegou num recorte de realidade absolutamente torpe, mesquinho, vil, de uma empáfia criminosa atroz, e deu-lhe a grandeza humana, sublimidade e complexidade que só um excelso ficcionista poderia conceber. 

Todos os campos desta bula resultam de uma edição feita a pensar nas vendas e zero no que um leitor de ficção que tenha uma estrutura encefálica funcional (capaz de mais do que mera sorvedura de enredo) irá retirar da obra.

Façam isto com aquela «literatura» dos sacos de organza, que quem a adquire só quer entreter-se um bocado e não é propriamente um leitor de causas que se bula com bulas e lamente que as bulas com decretos de excomunhão nunca se apliquem a quem merece tal opróbrio.

 

06
Set21

Das bitaitadas literárias 2

rltinha

IMG_20210906_162025_112.jpg

A autoconfiança do homem branco é fenómeno antigo com vocação de futuro. Esta «jovem» promessa assim o comprova.

Ungida por uma certa «facção séria»/«fora da norma» de amantes da palavra escrita, cá surge a obra que - e poderei estar em erro, só duvido mesmo muito que esteja - uma mulher da mesma idade não conseguiria fazer editar. Primeiro, por contar com um escrutínio maior sob todas as perspectivas (incluindo a interior), depois, por lhe faltar empáfia bastante, por fim, pela ausência de claque de apoio que para estas coisas «experimentais» reserva crédito aos cavalheiros.

Assim, temos um exercício versejado de desorientação peneirenta feita rumo reservado aos iniciados, seguido de enumerações armadas ao pingarelho em que todas as notas com ideias magníficas à mesa do café surgem compiladas (ora entre vírgulas, ora entre dois pontos, porque vanguarda e as cenas), insuflando uma narrativazita Bolaño série bifana & copo de três a fingir que viu mundo no Portugal dos Pequenitos.

Escrita de adolescência tardia, num onanismo permanente em resposta a um entumescimento de ego que chega a ser embaraçoso testemunhar. Amplo de forma no artifício, preparando uma deflagração com a vacuidade como resultado.

Nas palavras que em pp. 106 se podem ler: «essas reclusões e esses cortes abruptos no discurso nunca enganaram ninguém, tanta mania de ser diferente, shell shockzinho de arrabalde»

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