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Os Heterónimos da Peçonha

Os Heterónimos da Peçonha

16
Jan24

Das leituras no passado recente («On Palestine» de Noam Chomsky & Ilan Pappé)

rltinha

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Um livro breve, mas esclarecedor, sobre a não complexidade da famosa «questão complexa» do momento. Como qualquer abordagem dotada do mínimo de rigor e seriedade, é de reclamar goteira para ler as passagens sobre os reiterados ataques de Israel ao povo palestiniano, as jogadas sujas da política internacional dos EUA, a conivência europeia numa épica hipocrisia que a todos deve envergonhar.

Num tempo em que a comunicação social do mundo livre faz da propaganda russa uma fofinha, (com a agravante de, pelo menos a segunda, estar severamente apertada pela garra do Kremlin, mas a primeira escolher obediência à voz do dono ou, ainda mais ridículo e abjecto, imitar os heróis da manufactura de consentimento do outro lado do Atlântico, como fazem os cosmopolitas matarruanos da imprensa tuga), é preciosa a leitura de gente pensante, capaz de análise crítica, comprometida com valores absolutos como a justiça e não com cegueiras ideológicas ou, ainda pior, chalupice religiosa.

Recomenda-se muito esta leitura.

01
Ago23

Das leituras no passado recente («A Informação» de Martin Amis)

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Tendo por tema a inveja/competitividade entre dois «amigos» escritores e como factóide literário a zanga entre o Martin Amis e o Julian Barnes, foi direitinho para a lista de desejos. Infelizmente a Quetzal não o levou para as últimas feiras do livro, vendo-me eu obrigada a adquiri-lo com uns míseros 30% de desconto. Ironicamente a Wook vendeu-o com os desejáveis 50% de desconto na semana em que o comecei a ler.
Tudo isto, à semelhança do livro do Amis, é um conto moral. O cosmos conspirou com sinais demonstrativos (ex poste) da má ideia que foi adquirir esta tradução pejada de calinadas, feita por um tradutor que desconhece o significado do verbo presumir, assim o demonstrando em pelo menos 16 (dezasseis) ocasiões distintas, nas quais traduz MAL o verbo «to assume» para o verbo «assumir». Também renomeia a reincidência penal como recidiva, e chega mesmo a traduzir «paper cup» para «caneca de papel» (certamente porque o recipiente descartável teria uma asinha de papel). Nem sob a boa fé de na realidade o tradutor estar a criar no leitor a revolta e o desapontamento sentidos por Richard Tull num trabalho de transposição linguística meta-artístico isto parece menos mau.
Quanto ao livro: é lamentável que o haja lido já na fase em que coisas adolescentes como o realismo mágico, os «nothingburgers» bué simbólicos ou a sociopatia armada aos cágados me digam já tão pouco. Sendo o livro opulento neste último tipo de afectações «teen» muito famosas entre homens com síndrome «sou o maior da minha rua, mas, tipo, por ser bué inteligente», tê-lo-ia adorado há um par de décadas. Por isso limitei-me a rir bastante e a satisfazer a curiosidade literária sobre o livro gerador de um «desamigamento» literário de larga fama, certa de que uma tradução alienante pela frequência dos seus erros dificilmente terá feito justiça à qualidade da escrita de Amis.

17
Jul23

Das leituras no passado recente («Confiança» de Hernán Díaz)

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Começando por um livro dentro do livro, Diáz adianta o tema, o tempo e o lugar (dinheiro/finança, EUA, dos loucos anos 20 ao pós-Grande Depressão). Segue-se-lhe uma estranha autobiografia inacabada, uma memória «bildungsroman» pela improvável ex-secretária do autor da autobiografia, culminando no diário da mulher do autobiografado.

Com estas quatro partes distintas Díaz confirma o que diz de si próprio - que há muito se esforça, trabalha e escreve (e que lufada de ar fresco é ler entrevistas em que o autor se apresenta como ser humano dedicado ao processo e não um iluminado das musas da escrita que recebe em si um dom divino) - e tem prestações de qualidade em todos estes estilos e vozes narrativas.


Depois há o fio que a tudo isto urde, dando às personagens densidade e relevância consoante cada perspectiva e contributo «factual» transportado para o conhecimento do leitor, num omnipresente ensaio subliminar sobre a ficção «dinheiro», indissociável dos seus cultores maiores que são os homens da finança, com um antecipável, mas nem por isso menos rico twist final. E é por estas duas últimas partes que este romance se revela à altura dos elogios, pela capacidade para rever a história pela perspectiva dos vencidos usando as fórmulas, os cenários, e a própria literatura dos vencedores.

13
Jul23

Das leituras no passado recente («Fundação» de Isaac Asimov)

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Um clássico incontornável da ficção científica, amplo em enredo e personagens cativantes (ainda que as mais fascinantes sejam um decalque variado de um modelo-base), que relata uma história de império galáctico em declínio e os deliciosos meandros sócio-político-económicos de um atalho de recuperação civilizacional traçado pela ficcionada disciplina da psico-história.

Exactamente o que parece: um portento imaginativo competentemente narrado, capaz de criar no leitor uma vastidão de mundos. Só não chega tão longe que permita ver mulheres como seres humanos completos e muito menos em lugares de poder ou protagonismo. Que este futuro é o de há 80 anos, mas agora parece que já é tudo leite e mel e até o termo vagina deve ser evitado, não vá alguém destituído de uma ofender-se na sua sensibilidade com a nomeação de um órgão que garantiu às suas portadora um apagamento tão absoluto que até operava nas capacidades imaginativas mais fulgurantes.

13
Jun23

Das leituras no passado recente («Os Livros da Minha Vida» de Maria Filomena Mónica)

rltinha

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Ler textos pessoais, sobretudo os que relatam percursos de vida das personalidades públicas eruditas, requer distanciamento emocional e nenhuma consciência de classe. Só assim se aligeira a irritação gerada pela empáfia do privilégio nas suas ramagens plúrimas.
Enquanto ao leitor vai sendo enunciada uma vasta lista de títulos (cuja edição é demasiado possidónia para traduzir até nas frequentes vezes em que existe tradução portuguesa das obras) recebe também o mesmo leitor o testemunho de uma autora que tem a Inglaterra como A nação superior, a qual lhe deu o que de melhor que existe em termos culturais, não se poupando à exaltação da liberdade que a liberachada tanto gaba (sem considerar as demais condições para existência da «liberdade a sério»), lamentando os malefícios do politicamente correcto, sublinhando que a Amazon muito fez por todos nós («e o seu contributo é enorme» [sic]) enquanto se afirma «de esquerda».
Num tempo de imposição (pelos próprios a terceiros) pelo que se afirma e não pelo que se faz/se é, aceitemos como «de esquerda» quem, com fascínio confesso por uma monarquia (no século XXI) entregue à selvajaria das políticas neocoisas, se diz de esquerda.
E bata-se punho a traduzir dezenas de títulos que nem autora nem revisor se dignaram a traduzir.

28
Abr23

Das Leituras no passado recente («O Acontecimento» de Annie Ernaux)

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Parece de outro tempo (e é). Mas o passado é recente q.b. para ter sido nas nossas vidas que mulheres viveram esta tragédia dentro da tragédia que é abortar. A tragédia de só as mais abastadas se pouparem ao tremendo risco da clandestinidade das pobres, pagando com a saúde e por vezes a vida o que é um cuidado de saúde básico numa sociedade minimamente livre e igual.
O cativante relato de «O Acontecimento» expõe a profunda solidão da mulher refém de uma gestação indesejada entre homens incapazes de responsabilidade ou culpa, como se a gravidez não conhecesse co-autoria masculina. Demonstra que a gravidez é, frequentemente, uma sentença de pobreza lida às mulheres que escolhem (condicionadas, ou livremente) levá-la a seu termo, sem a interromperem.
E foi para se libertar da pobreza e poder ascender a uma classe acima da sua que esta jovem mulher co-narradora arriscou a vida, submetendo-se a procedimentos medievos e perigosos, porque a sociedade vivia melhor com o mal das muitas para que uns poucos reaças dormissem no seu sossego hipócrita (quantos deles apoiaram e custearam a IVG para as mulheres da família enquanto cuidavam de submeter as mulheres pobres a esta barbárie ostracizante?; quantas mulheres abertamente contra a IVG optaram, na sua intimidade, por interromper a gravidez do seu corpo ou das mulheres da sua família?).
«O Acontecimento» dá conta de uma das muitas formas de agonia das mulheres. Do que sofreram e sofrem enquanto grupo. Do quanto durante tantos séculos esteve normalizado e era pura violência e subjugação. Não nos surpreendamos então que muitas mulheres, com tanto de horrível tão próximo e ainda presente na sua história, sejam quem reclama visibilidade onde certas agendas as pretendem apagar em nome da inclusividade.
É que, mal começámos a notá-las e a dignificá-las com vagos mínimos, logo trataram de lhes terraplanar a identidade.
Também por isto, um relato contundente e honesto como este «O Acontecimento» é um testemunho importante do sofrimento no feminino, exclusivamente imposto pelos fortes sobre as fracas.

11
Abr23

Das adições ao acervo livresco doméstico (chegadas do passado recente)

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Doravante conto reduzir as tentações livrescas momentâneas, fazendo por orientar as aquisições para objectivos leitores de mais longo alcance.

Mas, como a minha mutabilidade decisória é ampla no que respeita a leituras, ainda estou para ver no que darão tais intentos...

31
Mar23

Das densidades compensadoras («Absalão, Absalão!» de William Faulkner)

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Os primeiros dois terços são densos, têm tudo aquilo de que se queixam os nhonhós que acham que o senhor Faulkner não lhes merece esforço leitor. O último terço, também porque dá sentido ao todo e fecha vários arcos narrativos até aí muito menos perceptíveis, exige bem menos. Mas todo o livro é Sul Profundo faulkneriano, narrando em portentosa frase longa a tragédia prenunciada, que avança como uma torrente: inelutável, turva, de ecos plúrimos (a várias vozes), e cíclica... como são as torrentes sazonais até que as alterações climáticas lhes acabem com a estirpe.

Fica a sugestão: go faulkner youselves.

27
Mar23

Das dessincronias leitoras («The Collected Poems, Vol. 1: 1909-1939» William Carlos Williams)

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Chegar a esta poesia 20 anos antes ter-me-ia deslumbrado. A ingenuidade, o optimismo, o vagar tremendo de quem vê a amostra e a toma pelo todo que dispensa gestão de esforços (e de tempo), a generosidade impressionável, tudo isso se foi reduzindo com o volver dos dias e o aperto das suas possibilidades horárias.

Com tais qualidades recuperadas esta leitura teria sido bem distinta, dificilmente determinante de mais do que a pouca vontade de seguir para o segundo volume.

12
Mar23

Das torrentes de fel crítico («O Atlas» de William T Vollmann)

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Eu devia ter desconfiado quando comecei a ler/ver conteúdos sobre o Vollmann e este livro em particular, todas muito elogiosas, mas exclusivamente masculinas. (Às vezes esqueço-me de como a desconfiança pode ser sadia e propensa à auto-preservação.)

«O Atlas» de William T Volmann é a cornice mais misógina e lenocina (eu sei que há aqui um pleonasmo; deixem-me!) que li em toda a minha vida.

E sim, há muita coisa por aí que partilha estas características odiosas, é vasta a lista de obras generosas em cornice misógina, romantização/normalização da exploração e objectificação dos corpos das mulheres, desumanização das mulheres, diabolização da mulher toxicodependente/incumpridora de deveres parentais/afectivamente reservada ou indisponível/simplesmente desobediente à vontade do macho. 

Mas este agregado de trechos narrativos cornos eleva aquele leque aos píncaros de uma escrita forte e segura, densa de imagens e contextos plúrimos de uma deambulação planetária cornuda. «O Atlas» é um mapeamento de ódio sonso às mulheres que, se não enojar o leitor, então talvez este possa servir de matéria de estudo sociológico sobre a razão pela qual o predador das mulheres é o homem e nada na sociedade se muda para cessar a violência e opressão da qual as mulheres são e serão vítimas até nas sociedades que gostam de se pensar como «mais evoluídas».

Além de convocar o globo terrestre com focalizações em pontos escolhidos, cumprindo a forma de um palíndromo narrativo que é um tratado de cornice misógina e lenocínio, «O Atlas» também integra um asco de outro tipo: o do turista de guerra que sob as vestes do jornalismo vai sugar adrenalina e satisfação de pulsão sádica para depois relatar a barbárie enquanto adereço performativo de glutonia de atenção e sociopatia socialmente validada com a unção unânime. «Oh, a coragem de Beltrano! Que partiu da segurança do seu lar para, com valentia e dedicação à causa, comer torradas de abacate num bar de hotel, ao som de artilharia pesada sobre bairros de desgraçados sem nada para comer há semanas, e ainda encontra tempo para uns passeios voyeurs enquanto desafia a sorte sobre os quais envia textos cheios de si e pimenta no cu dos outros». 

Haja intelectuais, e pessoas melhores do que eu, para receberem como heróis estes bravos sugadores da miséria alheia, e também para apreciarem cornice literária sem consciência de género ou de classe.

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