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Os Heterónimos da Peçonha

Os Heterónimos da Peçonha

17
Jun22

Das bitaitadas literárias 11

rltinha

2022.06.16 Mitenka.jpg

No Yoknapatawpha do Mississipi de Faulkner, Addie Brunden ocupa o leito de morte enquanto o filho mais velho lhe talha as tábuas do caixão, precipitando a morte de Addie a sua última viagem, que tem por obstinado destino Jefferson, lugar do outro lado de um rio extravasado em torrentes que levaram as pontes que asseguravam travessias seguras.

Quinze vozes narrativas em 59 capítulos de angustiada culpa, perdição, e expiação. 

Poderoso, pungente, perfeito.

28
Dez21

Das bitaitadas literárias 10

rltinha

20211226 Joseph Roth.jpg

Excluindo a tendência para criar diálogos com exclamações que melhor se quedariam declarações, a escrita de Joseph Roth merece todos os elogios que de um modo geral povoam as críticas ao seu trabalho. Esta curta novela é um bom exemplo do mencionado supra.

Em pouquíssimas páginas todo um universo particular se apresenta ao leitor, levando-o na improvável entrega de Fallmerayer ao desejo que uma aleatoriedade plantou naquela que, até então, era uma existência regrada no espartilho das expectativas alheias. E sim, há a tal «história de amor impossível», a perseverança de Fallmerayer, e todos os lugares comuns.
Mas o que li de verdadeiramente extraordinário foi o epílogo, um «sopapo narrativo» como já não sofria desde as últimas páginas de «A Montanha Mágica» (ainda que numa escala necessariamente menor), e quem leve consciência de classe para esta leitura certamente que também o perceberá.
Sublime.

22
Dez21

Das bitaitadas literárias 9

rltinha

20211222 Sadeq Hedayat.jpg

Muito me surpreendeu, depois de me forçar a ler rapidamente o livro, (animada do pragmatismo que emprego na higienização dos wcêzinhos deprimentes da gataria quando por lá deixam instalação nauseabunda), em ver opiniões positivas sobre ele, sendo estas emitidas por gente com idade superior aos impressionáveis 16 anos, idade própria para fascínios com palermices sonho/realidade, doença mental/realidade, e achar que são bué originais.


Misógino e muito parvo, é a caracterização que penso melhor servir a este texto que tem uma só virtude: a de ser curto.

Sob a capa de fantasia macabra e entre a meandrada da modificação de termos identitários na progressão/regressão narrativa, o que temos é um exercício adolescente de uma escrita que nada traz de novo nem relata mais do que notas preguiçosamente dispersas contendo obsessões e ódios de estimação travestidos de originalidade aquém do patamar qualitativo de um mediano jornal escolar, em desavergonhada glutonia por (imerecida) atenção.

20
Dez21

Das bitaitadas literárias 8

rltinha

20211220 Os Anos.jpg

Imagine-se a concretização literária de uma daquelas cenas-cliché que o (mau) audiovisual usa para ilustrar a vida inteira que passa pela mente do moribundo, mas sem nada de repreensível, antes fazendo um exercício extraordinário e particular de um percurso simultaneamente singular e genérico a toda uma geração.

Lê-se como quem respira  esse fôlego de vida. Volvida. Pré-olvidada.

20211220 Citação.jpg

(Ao longo da leitura fui adensando a certeza de este livro ser «a cara» de uma muito, muito querida amiga que já não vive. Tive a amargura da impossibilidade da partilha, mas vivi o contentamento de nutrir a minha memória afectiva.)

17
Dez21

Das bitaitadas literárias 7

rltinha

20211217 Roth.jpg

Roth, com todos os amplos defeitos que lhe conhecemos, era um indivíduo com uma capacidade tremenda parar rir e ironizar, para debater assuntos sérios através de meandrada hilariantemente pitoresca, para levar a sério unicamente o que lhe permitia escrever, tudo o resto arrumando em patamares menores.

Era um sacana misógino e egoísta, mas nem por isso o que escreveu perdeu qualquer interesse. Este pequeno livro é um óptimo exemplo do Roth levianamente ruim, autocentrado, e comicamente palerma nos exercícios de efectivação do seu pior.

09
Dez21

Das leituras correntes 2

rltinha

20211208 Philip Roth.png

in «O Escritor Fantasma» de Philip Roth (2017, Dom Quixote)

 

Se há coisa que aprecio saber é picuinhice leitora, seja ela a de grandes vultos da literatura ou de gente aleatória. Do bisbilhotar do título que estão a ler os passageiros de transportes colectivos, veraneantes na praia, clientes de cafés, etc, ao destaque de passagens sobre abordagens leitoras em variados textos. Eis um pedaço de vida privada pelo qual realmente me interesso.

 É também por esta inclinação pessoal que tanto aprecio o podcast da Isabel Lucas, no qual estas questões importantíssimas são feitas aos convidados.

 

07
Out21

Das adjectivações dignas de reparo

rltinha

Sobre Camus e Sartre, refere António Mega Ferreira* que «entenderam-se em torno de uma consciência partilhada do absurdo da vida (...) e, claro, das leituras com que ambos, leitores bulímicos, tinham alimentado a sua curiosidade intelectual».

Curiosa expressão, esta de distúrbio alimentar aplicado à actividade leitora. Do contexto depreende-se que a bulimia será sinónimo de voracidade. Ora, em bom rigor, um leitor animado de bulimia não terá somente um consumo voraz da palavra escrita, pois que a plenitude comparativa implica um regurgitar sofrido e auto-destrutivo, logo depois da ingestão, por tal modo que aquilo que retira da leitura será uma pálida amostra literária face ao seria o proveito de tudo quanto havia lido.

Procurei no google (às vezes o Dr. Google até sabe de cenas). Nada de explicações semânticas, só mesmo o uso da expressão com sentido similar.

Além de absurda, a metáfora é muito infeliz.

*in «Desamigados - ou como cancelar amizades sem carregar no botão» (2021, Tinta da China)

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