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Os Heterónimos da Peçonha

Os Heterónimos da Peçonha

22
Fev23

Das leituras no passado recente («A Trilogia de Copenhaga» de Tove Ditlevsen)

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Numa escrita enxuta e sintética, habitada de imagens de um impressionismo improvável, é narrada a vida de Tove Ditlevsen, ficando a realidade numa outra dimensão.

O ritmo e a progressão são simultaneamente relato e demonstração de uma existência que parece acontecer à narradora, num determinismo participado.

Antes de ser moda ou solução editar em barda e sem esforços maiores um conjunto de vivências pior ou melhor embonecados, Ditlevsen expôs-se enquanto escritora e toxicodependente, sem autocomiseração. Sem artifícios ou exploração dos outros para ganhos próprios.

Por fim, há o nada despiciendo aspecto de se tratar de uma mulher, de toda a sua existência ser irremediavelmente cerceada por tal condição, ostentando-a com a mesma naturalidade com que não adensa as múltiplas iniquidades do tratamento que recebe, mas sem fingir que essa sua condição - a de mulher - não foi determinante em tudo quanto lhe sucedeu.

14
Fev23

Das leituras no passado recente («Submundo» de Don Delillo)

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A genialidade narrativa de DeLillo poderá ser comprovada logo no primeiro capítulo, que é um portento narrativo que até a alguém que não quer saber nadinha de basebol faz abanar a alma (é essencialmente sobre um certo jogo ocorrido na década de 50 do século passado). O restante não acompanha qualitativamente, mas só porque a «personagem principal», face às secundárias, é tão interessante de ler como calcular juros de mora. Prova de que o sonho americano - que é isso que a personagem pretende incorporar - é uma balela e um aborrecimento.

Realmente notáveis e extraordinárias são várias dessas personagens secundárias, numa riqueza criativa e narrativa como poucas vezes se tem a sorte de encontrar, com aqueles passos da hábil dança que estes mestres da verborreia da americanidade da segunda metade do século XX tão bem executam, entregando ao leitor o ovo de Páscoa plantado um par de centenas de páginas antes, tudo fazendo convergir. Ora expressamente, ora na vontade leitora, que é convocada com efectivo esforço e não através de vacuidades armadas aos cucos.

Há muito que tinha o DeLillo como desonrosa lacuna nas minhas leituras e em boa hora colmatei tal lacuna. Espero durar para ler mais deste autor.

15
Jan23

Das leituras no passado recente

rltinha

O ano de leituras foi aberto com o «Karmen» de Guillem March e com o vol. 4 de «The Far Side® Gallery 4». Mas o marco leitor desta pobre (em números) quinzena foi «O Cemitério de Praga» de Umberto Eco.

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Que o senhor Eco era um fã de conspirações, portador de uma ironia infinita para com todo o tipo de mistificações, já se sabia. Mas «O Cemitério de Praga» é a materialização de uma soberba caixa de areia para brincadeiras infinitas com esta sua matéria de eleição. Nada ali deixa de ser utilizado para a pura diversão do escritor. O leitor que se segure, que escreva notas, ou que se deixe ir (recomenda-se esta terceira opção). Eco não acumulou milhares (lendo uma quantidade assinalável) de livros para depois não se divertir tanto quanto podia a parodiar plúrimas conspirações e mitos, e ainda a usar tropos narrativos nessa celebração lúdica do que é contar uma história.
Este livro terá como pecado maior a intensidade e a insistência. É que nem todos os dias se está com vontade de ler narradores tudo menos fiáveis, desprezíveis e vis até ao tutano, ainda que sabendo-os caricaturas de modelos dignos destas adjectivações. Sim, o anti-semitismo e a misoginia tal como manifestados pelos narradores são hilariantes. Mas é factual que neste livro se tem que ler muito discurso anti-semita e misógino. Talvez demasiado.

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À pergunta «seria feliz a comer apenas bolo de chocolate o resto da minha vida» aprendi com «The Far Side® Gallery 4» que a resposta é não. No termo de um jornal diário um painel assenta muito bem. Muitos compilados num livro são puro enfado.

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A arte de «Karmen» é superior ao argumento, ainda que viva à boleia de opções fáceis para chocar. Mas a paleta é sublime. Coisa que o argumento fica a parsecs de alcançar. 
Falhas de comunicação, isolamento social, e a enésima historieta de um limbo entre a vida e a morte de uma personagem em provação.


Adolescência tardia num bildungsroman de netflix para as massas. Só que com aura de culto. Vá-se lá saber porquê.

 

03
Jan23

Das actualizações de intenções

rltinha

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A hilaridede serena do tédio de Kobayashi Issa é o meu modelo de inspiração para 2023. (Uma pessoa, ainda que pessimista, também pode sonhar com amanhãs não ruins.)

Também por conta da recontagem de datas com o novo ano, ou então porque já se adiou em demasia o que urgia fazer e esta é uma oportunidade jeitosa, será este o novo pólo da partilha de opinião leitora da autora deste blog.

Ninguém aqui foi chamado.

Quem vier e ficar sofrido com as opiniões fica solenemente advertido de que neste espaço se procederá ao que BSS designaria festim crítico-orgiástico de fim de leitura.

20
Out21

Das bitaitadas literárias 5

rltinha

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Personagens que executam viragens de 180 graus e permanecem de papel, enredos forçados, linguagem pobre (que poderá ser só efeito da tradução da tradução). Eis um fenómeno de vendas bastante insondável, pois não obstante as impressões aqui tecidas, é certo que também não é leitura fofinha ou fácil de acompanhar, dado o número de personagens com nomes nipónicos cuja memorização é um pouco mais difícil.

18
Out21

Das bitaitadas literárias 4

rltinha

Eagleton é um comunicador e consegue transmitir de modo simples mensagens de teor complexo. Infelizmente o livro tem menos de metade da dimensão desejável para que realmente veicule conteúdo suficiente para servir de instrumento de consulta e auxílio permanente, que era a primeira e a maior das expectativas que tinha quando o adquiri.

A opção pela leveza e simplicidade ganha mais público, mas não é vantajosa para quem está habituado a dedicar aos livros mais atenção do que à televisão.

Spoilar mais de uma vintena de títulos (alguns dos quais já li mas outros nem por isso) como meio para atingir o fim desejado, povoando o livro com exemplos práticos e de compreensão facilitada, é um método tão eficiente quanto merecedor do mais absoluto repúdio. [Até o João Gil aprendeu quão errada é a conduta do vil spoilador.]

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O trabalho de tradução enferma de um erro repetido dezenas de vezes que chega a impedir a percepção do correcto sentido das frases ao incauto leitor que não se aperceba que o «to assume», para o senhor tradutor, é sempre traduzido como «assumir». Chegamos ao cúmulo de surgir «assunção» quando o claro significado pretendido pelo autor é «presunção». 

Claro que gente existe que tem isto por questão menor. Se o legislador lhe apanha o jeito, ainda teremos uma certa secção do Código Civil (art.ºs 349.º a 351.º) rebaptizada como «Assunções».

Não se contentando com fixar no leitor um permanente estado de alerta para proceder a uma interpretação correctiva, o senhor tradutor, que traduz de inglês para português de Portugal, escolheu enxertar os trechos citados com traduções para português do Brasil quando existem edições das obras citadas traduzidas em português de Portugal.

08
Out21

Das bitaitadas literárias 3

rltinha

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O pior do desterro é que ele tem aliada uma dimensão temporal. E esta impõe uma penosidade sem contenção geográfica, porque fixa a perene impossibilidade do regresso.
Sendo possível voltar ao lugar de origem, ao tempo de origem não mais se retorna. O que resta ao desterrado é o desenho vago dos gestos da volta a casa, a coreografia do que não pode ser, nunca mais, entre os despojos da inclemente voragem do tempo.

«É preciso ter uma terra, mais que não seja pelo gosto de a deixar. Uma terra quer dizer não estar só, saber que nas pessoas, nas plantas, no chão há alguma coisa de nosso, que mesmo quando lá não estamos fica à nossa espera.»

«Os verdadeiros achaques da idade são os remorsos.»

06
Set21

Das bitaitadas literárias 2

rltinha

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A autoconfiança do homem branco é fenómeno antigo com vocação de futuro. Esta «jovem» promessa assim o comprova.

Ungida por uma certa «facção séria»/«fora da norma» de amantes da palavra escrita, cá surge a obra que - e poderei estar em erro, só duvido mesmo muito que esteja - uma mulher da mesma idade não conseguiria fazer editar. Primeiro, por contar com um escrutínio maior sob todas as perspectivas (incluindo a interior), depois, por lhe faltar empáfia bastante, por fim, pela ausência de claque de apoio que para estas coisas «experimentais» reserva crédito aos cavalheiros.

Assim, temos um exercício versejado de desorientação peneirenta feita rumo reservado aos iniciados, seguido de enumerações armadas ao pingarelho em que todas as notas com ideias magníficas à mesa do café surgem compiladas (ora entre vírgulas, ora entre dois pontos, porque vanguarda e as cenas), insuflando uma narrativazita Bolaño série bifana & copo de três a fingir que viu mundo no Portugal dos Pequenitos.

Escrita de adolescência tardia, num onanismo permanente em resposta a um entumescimento de ego que chega a ser embaraçoso testemunhar. Amplo de forma no artifício, preparando uma deflagração com a vacuidade como resultado.

Nas palavras que em pp. 106 se podem ler: «essas reclusões e esses cortes abruptos no discurso nunca enganaram ninguém, tanta mania de ser diferente, shell shockzinho de arrabalde»

22
Ago21

Das bitaitadas literárias

rltinha

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«Onde se mata um português, matam-se logo dois ou três, é como funciona.»

Numa narração de pequena portugalidade comunitária com o suicídio como resposta disseminada às plúrimas afrontas que só conhece bem quem a vive (à vida no interior, nas terras pequenas em que todos se conhecem desde sempre e ao seu futuro traçado pelo preconceito alheio - profecia que raras vezes se não auto-concretiza) Rui Cardoso Martins faz rir entre desgraças singulares que são exemplos-padrão.

«O Cardoso vestia camisa de cornucópias e disse-me que se és muito pobre convém-te saber dar um murro. Os braços eram grossos e vestiu a camisa de cornucópias castanhas e vermelhas entre Setembro e Julho desse ano, e no ano a seguir o mesmo calendário, todos os dias seguidos de dois anos escolares, ao sol e à chuva, a queimar e a gelar, mais as suas cornucópias. Não cheirava mal, só um pouco a velho. Quanto mais surrada, mais brilhante, cornos ocos a vomitarem fruta no estampado da única camisa que tinha.

- Lavo-a ao domingo, respondeu.

Puta de pergunta, Cruzeta, a pior de uma vida, a outra foi quando perguntaste ao anão do circo que idade é que ele tinha.»

De forma directa - distante das aves do paraíso cheias de si e vazias de ideias e/ou direcção, sem deslumbres provincianos (acontecem muito aos cosmopolitas que acham que viram mundo) com estrangeirismos equivocados tanto pelo estrangeiro como pelo idioma que deixaram de dominar devidamente, de pés assentes nesta particular nação, sem armar ao pingarelho como um Saramago de marca branca que dá nomes e contextos bué Europa central para disfarçar (mal) a matarruanice bacoca - enxuta, portanto, e num registo particular que cativa desde o início, é relatada uma tessitura de singulares percursos de uma desgraça maior e colectiva que é isso de se ser Português fora do centro urbano que tudo monopoliza e anula.

Recomenda-se muito a leitura.

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