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Os Heterónimos da Peçonha

Os Heterónimos da Peçonha

10
Abr23

Das leituras no passado recente («Os Ignorantes» de Étienne Davodeau)

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Dois amigos têm carreiras distintas. Um é produtor de vinho, e o outro de arte sequencial (especialmente argumentos). Este último achou que tinha aqui óptimo material para uma novela gráfica, e por isso abundam os paralelismos forçados entre os dois ofícios, lembrando aquelas entrevistas em que os actores que dão voz a um animal real ou imaginário falam de como tiveram que explorar o «esquilo-das-pampas/crocodilo floclórico/dragão do Alto Minho» que havia algures no mapeamento da sua alma.

Talvez não suportar, sequer, o cheiro do vinho haja minorado a minha boa vontade leitora, mas ainda pior do que isso é o asco que tenho a cenas de «A conhece B, cuja fama aproveita para dar visibilidade ao que faz». E também nisso abunda esta obra, sempre muito humilde e autêntica, só que sem abdicar destes «cameos» que por acaso têm o condão de amaciar o público-alvo.

Uma leitura tão boa como um copo de vinho.

04
Abr23

Das leituras no passado recente («X-Men - Dias de um Futuro Esquecido»)

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O problema de se chegar a obras seminais depois de décadas a contactar com as narrativas emergentes daquela influência é que não se leva a frescura virginal necessária para se sentir o assombro adequado.
A piorar esta incapacidade de fruição estão ainda as issues iniciais, inseridas para alcançar a paginação média exigida pelos padrões da colecção em que se inseriu este título.
Por este motivo assinalou-se o preenchimento do quadradinho no formulário imaginário dos essenciais dos comics, mas o que se reteve foi uma pouco estimulante leitura de comics de uma era em que a hiper e prolixa explicação ainda era norma, embora já sem o encanto da hilaridade inicial, fazendo uso de mecanismos enfadonhos pela sua previsibilidade, sem esquecer a afronta estética da coloração «daltónico às escuras» típica dos comics dos 80’s.

27
Fev23

Das leituras no passado recente («A Vida é Bela, se não Desistires»)

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Auto-ficção gráfica com um protagonista à medida dos jovens cavalheiros dos filmes que Rohmer rodou na década de noventa do século passado.
A virtude maior deste delicioso álbum é a transmissão de um volver do tempo a várias velocidades, revelando em vez de explicar a evolução do narrador na sua busca algo obsessiva pelo autor de um cartoon numa New Yorker dos anos 50, figura tão rebuscada que as poucas migalhas de informação chegam espaçadas e em pouca quantidade.
Além do traço elegante e da coloração minimalista-nostálgica, a obra é particularmente cativante pela quietude. Lida agora, no tempo frenético da internet ubiquamente na ponta dos dedos, esta lenta e progressiva busca por Kalo é um bálsamo, um belo conto de amor ao processo. Num tempo em que havia vagar para isso.

16
Fev23

Das leituras no passado recente («Peanuts Obra Completa, 1950-1952» de Charles M Schulz)

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Movida pela ideia de «bolo de chocolate é bom, mas um inteiro é capaz de enfartar», decidi «ir lendo» este «Peanuts Obra Completa, 1950-1952». Ou seja, iniciei-o com intenção de a sessão nocturna de leitura de arte sequencial não consisitr apenas em Peanuts. Mas foi de tal modo bom que não senti necessidade de variar a leitura.

Ainda com muita Patty, Violet, e algum Shermy que não são os Peanuts que imediatamente se lembram e adoram, com um muito novinho Schroeder e um Snoopy bem distinto do que viria a ser posteriormente, mas já obrigando a contrair os músculos faciais num confortável sorriso permanente.

Ainda bem que tenho mais volumes na lista das leituras vindouras.

08
Fev23

Das leituras no passado recente («Eu, Assassino»)

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Talvez o objectivo fosse uma personagem principal sofisticada, além dos espartilhos do catálogo vigente e dominado pelos comuns mortais, com uma ética somente ao alcance de uma vanguarda presumida como alheia ao leitor típico. O resultado, porém, é uma azeiteirice tentando dar um passo maior do que a perna, sem nada de novo ou original. «Demasiada agitação para disfarçar a falta de ideias.»

A unção colectiva em torno disto é fenómeno para lá da minha compreensão. Talvez o polvilhanço com referências artísticas e a colocação de parte da acção na academia hajam sacado aos leitores uma presunção de valor estético e narrativo que uma alma bruta como a minha falhou em encontrar. Ou então a rusticidade do meu intelecto lavou dos meus olhos as ramelas que emprestam brilho ao que é baço como madeira tosca.

O trabalho gráfico é notável: está à altura do argumento com os seus vulgarismos formulaicos travestidos de «fora da caixa».

15
Jan23

Das leituras no passado recente

rltinha

O ano de leituras foi aberto com o «Karmen» de Guillem March e com o vol. 4 de «The Far Side® Gallery 4». Mas o marco leitor desta pobre (em números) quinzena foi «O Cemitério de Praga» de Umberto Eco.

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Que o senhor Eco era um fã de conspirações, portador de uma ironia infinita para com todo o tipo de mistificações, já se sabia. Mas «O Cemitério de Praga» é a materialização de uma soberba caixa de areia para brincadeiras infinitas com esta sua matéria de eleição. Nada ali deixa de ser utilizado para a pura diversão do escritor. O leitor que se segure, que escreva notas, ou que se deixe ir (recomenda-se esta terceira opção). Eco não acumulou milhares (lendo uma quantidade assinalável) de livros para depois não se divertir tanto quanto podia a parodiar plúrimas conspirações e mitos, e ainda a usar tropos narrativos nessa celebração lúdica do que é contar uma história.
Este livro terá como pecado maior a intensidade e a insistência. É que nem todos os dias se está com vontade de ler narradores tudo menos fiáveis, desprezíveis e vis até ao tutano, ainda que sabendo-os caricaturas de modelos dignos destas adjectivações. Sim, o anti-semitismo e a misoginia tal como manifestados pelos narradores são hilariantes. Mas é factual que neste livro se tem que ler muito discurso anti-semita e misógino. Talvez demasiado.

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À pergunta «seria feliz a comer apenas bolo de chocolate o resto da minha vida» aprendi com «The Far Side® Gallery 4» que a resposta é não. No termo de um jornal diário um painel assenta muito bem. Muitos compilados num livro são puro enfado.

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A arte de «Karmen» é superior ao argumento, ainda que viva à boleia de opções fáceis para chocar. Mas a paleta é sublime. Coisa que o argumento fica a parsecs de alcançar. 
Falhas de comunicação, isolamento social, e a enésima historieta de um limbo entre a vida e a morte de uma personagem em provação.


Adolescência tardia num bildungsroman de netflix para as massas. Só que com aura de culto. Vá-se lá saber porquê.

 

02
Nov22

Das bitaitadas gráficas 3: «Edgar P. Jacobs - O sonhador de Apocalipses»

rltinha

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Nunca se deve menosprezar o potencial do entusiasmo fanboy.


O caso vertente assim o demonstra: da profunda admiração que François Rivière nutria por Edgar P. Jacobs surgiu esta biografia gráfica em que as vinhetas contêm tanto de enredo pejado de «ovos de Páscoa» para os fãs de Blake & Mortimer como de respeitosa homenagem. A arte de Philippe Wurm é a perfeita correspondência do voluntarismo deslumbrado (no bom sentido) de Rivière.


E assim se fez um álbum que muito teria sido apreciado pelo próprio Jacobs.

26
Out22

Das bitaitadas gráficas 2

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Num mundo medieval não concretamente identificado, mas em que a condição das mulheres, dos homens, e do clero em tudo se assemelha aos reinos medievais, um casamento ajustado pelas respectivas famílias unirá a Bianca a Giovanni.
Antes e depois dele, porém, Bianca vestirá uma mágica pele de homem que há gerações é passada e usada entre as mulheres da sua família, dentro da qual estas puderam circular pelo mundo enquanto homens.
A pele é o mecanismo pelo qual flui toda uma experiência de privilégio, liberdade, e possibilidade que para as mulheres é tão vedada que não a imaginariam. Encontra eco em páginas fluídas, de painel único, pelo qual deambulam as personagens, em pictorizações entre o fabulesco e o imediatamente gracioso. Sem moralismos excessivos, este é um enredo de desmontagem de estereótipos, de indagação sobre «a tradição», de soluções práticas para problemas complexos, mas com a virtude de não pregar coisa alguma.

11
Jul22

Das bitaitadas literárias 12

rltinha

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Mais um álbum duplo de Armazém Central e, aqui chegados, os fãs bem podem regozijar-se. Um par de de volumes que capitalizam na construção narrativa anterior, com as personagens a agir «fora de si» (ou dentro, depende de quanto realmente se observou no crescimento delas).
Sem cair em facilidades moralistas ou excessos para chocar, há mais uma convulsão na comunidade de Notre-Dame-des-Lacs e sobra a vontade de lá regressar.

08
Fev22

Das leituras à pála da cooperativa

rltinha

Movidas pelo amor à nona arte e pelos encantos do colectivismo, quatro alminhas conjugaram esforços e erigiram uma belíssima cooperativa cujo objecto é ler a vulgarmente conhecida como Banda Desenhada. Estes foram os primeiros títulos que li à conta da cooperativa, e aqui partilho os respectivos bitaitanços.

 

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«Dylan Dog: O Velho que Lê» (Fabio Celoni, Angelo Stano)

A arte de Fábio Celoni, só por si, já valia a pena. Mas neste noir fantástico-literário notavelmente bem narrado, gera sucessivas páginas a comprovar a máxima de William Kuskin: «The page is a poem» .
Como complemento há o mini episódio «A Pequena Biblioteca de Babel» inspirado na obra de Borges, um complemento jeitoso para este volume. 

 

«Um Cowboy no Negócio do Algodão» (Achdé, Jul)

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Um jeitosíssimo desvio do cowboy solitário pelo(a) Luisiana, com os deliciosos Dalton no seu encalço, o marshall Bass Reeves à cata dos Dalton, e os estercos ensacados sob a forma de KKK a praticar os crimes necessários para se sentirem os maiores de sua rua.
E é aqui que entra a pedagogia de modo lúdico para pequenitos e mais graúdos, expondo o racismo naquilo que é: violência pela cor da pele.
Um repasto sequencial à altura daquele com que no epílogo são agraciados os crocodilos, mas de muito melhor digestão.

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