«As Partículas elementares» de Michel Houllebecq
O Michel Houllebecq adora homens e odeia mulheres. E escreve animado da ânsia de agradar aos homens, garantindo-lhes que são especiais, superiores às mulheres, legítimos donos do mundo (porque, coitados, ainda não lhes chegavam quase todos os modos de socialização a que foram sujeitos para lhes revelar estas coisas...).
Para tanto, o Michel narra imensos trechos de índole sexual que redundam em pornografia gratuita (os escritores tendem a escrever sobre aquilo que conhecem melhor), cria personagens femininas que, ora são detestáveis (para justificar a misoginia, percebem?), ora proferem elas próprias um discurso misógino primário que o autor, com a elegância de um rinoceronte sobre um canteiro de amores-perfeitos, julga assim dotar-se da qualidade de sentença (porque são as próprias mulheres a declarar coisas misóginas, logo, as bacoradas que dizem são factos e não misoginia). Sim, o «jénio» (como diz O Mitra) revela este nível de sofisticação…
Mas, se ele é isto, então como é que se justifica a aclamação literária do autor?
1.º Nunca se deve subestimar a voluntariedade de certos grupos em sacralizarem quem lhes legitima os sentimentos mais torpes e rasteiros (cf. vaga facha que assola o mundo); 2.º É homem e goza desse privilégio; 3.º Disfarça as boçalidades porno-chauvinistas com enxertos de vasta pesquisa (os «dialomonólogos» com que as suas personagens debitam boçalidades entremeadas de pesquisas são todo um tratado de como aos homens o mundo editorial tudo aceita como bom; nem Fidel Castro seria tão verborreico entre lençóis).
Mas, por muita pirueta e legitimação que lhe seja dada, Michel Houellebecq, no seu âmago, não passa de um Andrew Tate que sabe usar um cartão da biblioteca.