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Os Heterónimos da Peçonha

Os Heterónimos da Peçonha

04
Abr23

Das leituras no passado recente («X-Men - Dias de um Futuro Esquecido»)

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O problema de se chegar a obras seminais depois de décadas a contactar com as narrativas emergentes daquela influência é que não se leva a frescura virginal necessária para se sentir o assombro adequado.
A piorar esta incapacidade de fruição estão ainda as issues iniciais, inseridas para alcançar a paginação média exigida pelos padrões da colecção em que se inseriu este título.
Por este motivo assinalou-se o preenchimento do quadradinho no formulário imaginário dos essenciais dos comics, mas o que se reteve foi uma pouco estimulante leitura de comics de uma era em que a hiper e prolixa explicação ainda era norma, embora já sem o encanto da hilaridade inicial, fazendo uso de mecanismos enfadonhos pela sua previsibilidade, sem esquecer a afronta estética da coloração «daltónico às escuras» típica dos comics dos 80’s.

31
Mar23

Das densidades compensadoras («Absalão, Absalão!» de William Faulkner)

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Os primeiros dois terços são densos, têm tudo aquilo de que se queixam os nhonhós que acham que o senhor Faulkner não lhes merece esforço leitor. O último terço, também porque dá sentido ao todo e fecha vários arcos narrativos até aí muito menos perceptíveis, exige bem menos. Mas todo o livro é Sul Profundo faulkneriano, narrando em portentosa frase longa a tragédia prenunciada, que avança como uma torrente: inelutável, turva, de ecos plúrimos (a várias vozes), e cíclica... como são as torrentes sazonais até que as alterações climáticas lhes acabem com a estirpe.

Fica a sugestão: go faulkner youselves.

27
Mar23

Das dessincronias leitoras («The Collected Poems, Vol. 1: 1909-1939» William Carlos Williams)

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Chegar a esta poesia 20 anos antes ter-me-ia deslumbrado. A ingenuidade, o optimismo, o vagar tremendo de quem vê a amostra e a toma pelo todo que dispensa gestão de esforços (e de tempo), a generosidade impressionável, tudo isso se foi reduzindo com o volver dos dias e o aperto das suas possibilidades horárias.

Com tais qualidades recuperadas esta leitura teria sido bem distinta, dificilmente determinante de mais do que a pouca vontade de seguir para o segundo volume.

12
Mar23

Das torrentes de fel crítico («O Atlas» de William T Vollmann)

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Eu devia ter desconfiado quando comecei a ler/ver conteúdos sobre o Vollmann e este livro em particular, todas muito elogiosas, mas exclusivamente masculinas. (Às vezes esqueço-me de como a desconfiança pode ser sadia e propensa à auto-preservação.)

«O Atlas» de William T Volmann é a cornice mais misógina e lenocina (eu sei que há aqui um pleonasmo; deixem-me!) que li em toda a minha vida.

E sim, há muita coisa por aí que partilha estas características odiosas, é vasta a lista de obras generosas em cornice misógina, romantização/normalização da exploração e objectificação dos corpos das mulheres, desumanização das mulheres, diabolização da mulher toxicodependente/incumpridora de deveres parentais/afectivamente reservada ou indisponível/simplesmente desobediente à vontade do macho. 

Mas este agregado de trechos narrativos cornos eleva aquele leque aos píncaros de uma escrita forte e segura, densa de imagens e contextos plúrimos de uma deambulação planetária cornuda. «O Atlas» é um mapeamento de ódio sonso às mulheres que, se não enojar o leitor, então talvez este possa servir de matéria de estudo sociológico sobre a razão pela qual o predador das mulheres é o homem e nada na sociedade se muda para cessar a violência e opressão da qual as mulheres são e serão vítimas até nas sociedades que gostam de se pensar como «mais evoluídas».

Além de convocar o globo terrestre com focalizações em pontos escolhidos, cumprindo a forma de um palíndromo narrativo que é um tratado de cornice misógina e lenocínio, «O Atlas» também integra um asco de outro tipo: o do turista de guerra que sob as vestes do jornalismo vai sugar adrenalina e satisfação de pulsão sádica para depois relatar a barbárie enquanto adereço performativo de glutonia de atenção e sociopatia socialmente validada com a unção unânime. «Oh, a coragem de Beltrano! Que partiu da segurança do seu lar para, com valentia e dedicação à causa, comer torradas de abacate num bar de hotel, ao som de artilharia pesada sobre bairros de desgraçados sem nada para comer há semanas, e ainda encontra tempo para uns passeios voyeurs enquanto desafia a sorte sobre os quais envia textos cheios de si e pimenta no cu dos outros». 

Haja intelectuais, e pessoas melhores do que eu, para receberem como heróis estes bravos sugadores da miséria alheia, e também para apreciarem cornice literária sem consciência de género ou de classe.

27
Fev23

Das leituras no passado recente («A Vida é Bela, se não Desistires»)

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Auto-ficção gráfica com um protagonista à medida dos jovens cavalheiros dos filmes que Rohmer rodou na década de noventa do século passado.
A virtude maior deste delicioso álbum é a transmissão de um volver do tempo a várias velocidades, revelando em vez de explicar a evolução do narrador na sua busca algo obsessiva pelo autor de um cartoon numa New Yorker dos anos 50, figura tão rebuscada que as poucas migalhas de informação chegam espaçadas e em pouca quantidade.
Além do traço elegante e da coloração minimalista-nostálgica, a obra é particularmente cativante pela quietude. Lida agora, no tempo frenético da internet ubiquamente na ponta dos dedos, esta lenta e progressiva busca por Kalo é um bálsamo, um belo conto de amor ao processo. Num tempo em que havia vagar para isso.

22
Fev23

Das leituras no passado recente («A Trilogia de Copenhaga» de Tove Ditlevsen)

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Numa escrita enxuta e sintética, habitada de imagens de um impressionismo improvável, é narrada a vida de Tove Ditlevsen, ficando a realidade numa outra dimensão.

O ritmo e a progressão são simultaneamente relato e demonstração de uma existência que parece acontecer à narradora, num determinismo participado.

Antes de ser moda ou solução editar em barda e sem esforços maiores um conjunto de vivências pior ou melhor embonecados, Ditlevsen expôs-se enquanto escritora e toxicodependente, sem autocomiseração. Sem artifícios ou exploração dos outros para ganhos próprios.

Por fim, há o nada despiciendo aspecto de se tratar de uma mulher, de toda a sua existência ser irremediavelmente cerceada por tal condição, ostentando-a com a mesma naturalidade com que não adensa as múltiplas iniquidades do tratamento que recebe, mas sem fingir que essa sua condição - a de mulher - não foi determinante em tudo quanto lhe sucedeu.

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