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Os Heterónimos da Peçonha

Os Heterónimos da Peçonha

28
Dez21

Das bitaitadas literárias 10

rltinha

20211226 Joseph Roth.jpg

Excluindo a tendência para criar diálogos com exclamações que melhor se quedariam declarações, a escrita de Joseph Roth merece todos os elogios que de um modo geral povoam as críticas ao seu trabalho. Esta curta novela é um bom exemplo do mencionado supra.

Em pouquíssimas páginas todo um universo particular se apresenta ao leitor, levando-o na improvável entrega de Fallmerayer ao desejo que uma aleatoriedade plantou naquela que, até então, era uma existência regrada no espartilho das expectativas alheias. E sim, há a tal «história de amor impossível», a perseverança de Fallmerayer, e todos os lugares comuns.
Mas o que li de verdadeiramente extraordinário foi o epílogo, um «sopapo narrativo» como já não sofria desde as últimas páginas de «A Montanha Mágica» (ainda que numa escala necessariamente menor), e quem leve consciência de classe para esta leitura certamente que também o perceberá.
Sublime.

22
Dez21

Das bitaitadas literárias 9

rltinha

20211222 Sadeq Hedayat.jpg

Muito me surpreendeu, depois de me forçar a ler rapidamente o livro, (animada do pragmatismo que emprego na higienização dos wcêzinhos deprimentes da gataria quando por lá deixam instalação nauseabunda), em ver opiniões positivas sobre ele, sendo estas emitidas por gente com idade superior aos impressionáveis 16 anos, idade própria para fascínios com palermices sonho/realidade, doença mental/realidade, e achar que são bué originais.


Misógino e muito parvo, é a caracterização que penso melhor servir a este texto que tem uma só virtude: a de ser curto.

Sob a capa de fantasia macabra e entre a meandrada da modificação de termos identitários na progressão/regressão narrativa, o que temos é um exercício adolescente de uma escrita que nada traz de novo nem relata mais do que notas preguiçosamente dispersas contendo obsessões e ódios de estimação travestidos de originalidade aquém do patamar qualitativo de um mediano jornal escolar, em desavergonhada glutonia por (imerecida) atenção.

20
Dez21

Das bitaitadas literárias 8

rltinha

20211220 Os Anos.jpg

Imagine-se a concretização literária de uma daquelas cenas-cliché que o (mau) audiovisual usa para ilustrar a vida inteira que passa pela mente do moribundo, mas sem nada de repreensível, antes fazendo um exercício extraordinário e particular de um percurso simultaneamente singular e genérico a toda uma geração.

Lê-se como quem respira  esse fôlego de vida. Volvida. Pré-olvidada.

20211220 Citação.jpg

(Ao longo da leitura fui adensando a certeza de este livro ser «a cara» de uma muito, muito querida amiga que já não vive. Tive a amargura da impossibilidade da partilha, mas vivi o contentamento de nutrir a minha memória afectiva.)

19
Dez21

Das sessões no passado recente 11

rltinha

20211219 A Christmas Story.jpg

(«A Christmas Story» de Bob Clark, 1983)

Uma comédia infanto-natalícia, de época, na linha de «Malcolm In The Middle» mas com uma estrutura digna. A sequência com o Pai Natal do centro comercial é uma maravilha.

20211219 The Nightmare Before Christmas.jpg

(«The Nightmare Before Christmas» de Henry Selick,1993)

Falta-me a pacoviedade encantada e armada aos cucos cuja zénite se alcança na fase mais tola da adolescência - a dos fascínios góticos - para ainda ter pachorra para aturar as obsessões do Tim Burton.

Revi apenas por obrigação cinéfila.

Podia ter sido pior.

20211219 The Shop Around The Corner.jpg

(«The Shop Around the Corner» de Ernst Lubitsch, 1940)

Os clássicos raramente desiludem. Este, que para mim era ainda inédito, foi um regalo.

20211219 Cash On Demand.jpg

(«Cash on Demand» de Quentin Lawrence, 1961)

Dos mais improvavelmente natalícios filmes que vi neste Dezembro. Tão bem feito que nem parece ter apenas pouco mais de uma hora, cumprindo a medida certa de tudo, sem dar passos maiores do que a perna.

19
Dez21

Das bitaitadas gráficas

rltinha

20211219 Batman Noël.jpg

(«Batman: Noël» de Lee Bermejo, DC Comics, 2011)

Também sob a temática natalícia, mas sem calendarizações diárias, li esta belíssima adaptação de «Um Conto de Natal» de Charles Dickens que, não obstante pegar numa narrativa mais que conhecida, faz dela uma fábula de Natal original e cativante.

Lee Bermejo faz um trabalho notável e a coloração não lhe fica atrás. Quanto ao lettering é que não acompanho as opiniões favoráveis. Eu sou míope, estou-me tão nas tintas para as belezas como a minha visão para o que fica mais distante, se a legibilidade for afectada o trabalho é mau. 

17
Dez21

Das sessões no passado recente 10

rltinha

20211217 Un Conte de Noël.jpg

«Un conte de Noël» (Arnaud Desplechin, 2008)

Para os apreciadores de fábulas sobre famílias disfuncionais, personagens e argumentos fora da lógica da linguagem simplista com que se manipulam as massas, mas sem com isso se gerar o entumescimento de ego que malogra o artista com o defeito de se levar demasiado a sério.

Uma maravilha descoberta nesta aventura cinéfila do calendário do advento com cinema de temática natalícia.

17
Dez21

Das bitaitadas literárias 7

rltinha

20211217 Roth.jpg

Roth, com todos os amplos defeitos que lhe conhecemos, era um indivíduo com uma capacidade tremenda parar rir e ironizar, para debater assuntos sérios através de meandrada hilariantemente pitoresca, para levar a sério unicamente o que lhe permitia escrever, tudo o resto arrumando em patamares menores.

Era um sacana misógino e egoísta, mas nem por isso o que escreveu perdeu qualquer interesse. Este pequeno livro é um óptimo exemplo do Roth levianamente ruim, autocentrado, e comicamente palerma nos exercícios de efectivação do seu pior.

16
Dez21

Das sessões no passado recente 9

rltinha

2021-12-16 Meet Me In St. Louis.jpg

«Meet Me in St. Louis» (Vincente Minnelli, 1944)

Vi este clássico no passado recente (por ocasião do Calendário do Advento cinéfilo) e foi toda uma experiência de horror:

1. É um musical. Todo o género musical é para mim uma péssima ideia que gostaria muito que jamais tivesse passado pela mente humana. O mundo seria um lugar melhor sem o género cinematográfico «e, de repente, começam a cantar!».

2. É de 1944, mas infelizmente em Technicolor, dotando as gentes e cenários de uma coloração grotescamente artificial e absurda.

3. As mulheres são personagens com estrutura encefálica inferior a uma bolota, vivendo em torno dos homens, imersas nas fabulações com os rituais de passagem da tutela de seus pais para as dos futuros maridos, sabiamente manipuladoras na sua absoluta submissão aos maridos ou aos pais. Os homens que tudo movem e lideram são uns tristes instrumentalizados por uma sociedade que deles exige o peso ético da garantia económica de toda a família em troco desse papel preponderante.

4. A criança-actriz Margaret O'Brien tem uma prestação tão irritante que só quem tenha o poder de esquecê-la arriscará reproduzir-se.

5. Zero actores não brancos numa St. Louis do início do século XX.

6. Todo o imaginário e valores nos quais o argumento se sustenta são uma apologia desavergonhada do capitalismo e da vacuidade dos pensamentos e desejos femininos.

 

Em suma: bom gosto, consciência de classe, e sentimentos anti-racistas não serão atributos idóneos a apreciar esta obra.

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