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Os Heterónimos da Peçonha

Os Heterónimos da Peçonha

20
Out21

Das bitaitadas literárias 5

rltinha

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Personagens que executam viragens de 180 graus e permanecem de papel, enredos forçados, linguagem pobre (que poderá ser só efeito da tradução da tradução). Eis um fenómeno de vendas bastante insondável, pois não obstante as impressões aqui tecidas, é certo que também não é leitura fofinha ou fácil de acompanhar, dado o número de personagens com nomes nipónicos cuja memorização é um pouco mais difícil.

18
Out21

Das bitaitadas literárias 4

rltinha

Eagleton é um comunicador e consegue transmitir de modo simples mensagens de teor complexo. Infelizmente o livro tem menos de metade da dimensão desejável para que realmente veicule conteúdo suficiente para servir de instrumento de consulta e auxílio permanente, que era a primeira e a maior das expectativas que tinha quando o adquiri.

A opção pela leveza e simplicidade ganha mais público, mas não é vantajosa para quem está habituado a dedicar aos livros mais atenção do que à televisão.

Spoilar mais de uma vintena de títulos (alguns dos quais já li mas outros nem por isso) como meio para atingir o fim desejado, povoando o livro com exemplos práticos e de compreensão facilitada, é um método tão eficiente quanto merecedor do mais absoluto repúdio. [Até o João Gil aprendeu quão errada é a conduta do vil spoilador.]

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O trabalho de tradução enferma de um erro repetido dezenas de vezes que chega a impedir a percepção do correcto sentido das frases ao incauto leitor que não se aperceba que o «to assume», para o senhor tradutor, é sempre traduzido como «assumir». Chegamos ao cúmulo de surgir «assunção» quando o claro significado pretendido pelo autor é «presunção». 

Claro que gente existe que tem isto por questão menor. Se o legislador lhe apanha o jeito, ainda teremos uma certa secção do Código Civil (art.ºs 349.º a 351.º) rebaptizada como «Assunções».

Não se contentando com fixar no leitor um permanente estado de alerta para proceder a uma interpretação correctiva, o senhor tradutor, que traduz de inglês para português de Portugal, escolheu enxertar os trechos citados com traduções para português do Brasil quando existem edições das obras citadas traduzidas em português de Portugal.

08
Out21

Das bitaitadas literárias 3

rltinha

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O pior do desterro é que ele tem aliada uma dimensão temporal. E esta impõe uma penosidade sem contenção geográfica, porque fixa a perene impossibilidade do regresso.
Sendo possível voltar ao lugar de origem, ao tempo de origem não mais se retorna. O que resta ao desterrado é o desenho vago dos gestos da volta a casa, a coreografia do que não pode ser, nunca mais, entre os despojos da inclemente voragem do tempo.

«É preciso ter uma terra, mais que não seja pelo gosto de a deixar. Uma terra quer dizer não estar só, saber que nas pessoas, nas plantas, no chão há alguma coisa de nosso, que mesmo quando lá não estamos fica à nossa espera.»

«Os verdadeiros achaques da idade são os remorsos.»

07
Out21

Das adjectivações dignas de reparo

rltinha

Sobre Camus e Sartre, refere António Mega Ferreira* que «entenderam-se em torno de uma consciência partilhada do absurdo da vida (...) e, claro, das leituras com que ambos, leitores bulímicos, tinham alimentado a sua curiosidade intelectual».

Curiosa expressão, esta de distúrbio alimentar aplicado à actividade leitora. Do contexto depreende-se que a bulimia será sinónimo de voracidade. Ora, em bom rigor, um leitor animado de bulimia não terá somente um consumo voraz da palavra escrita, pois que a plenitude comparativa implica um regurgitar sofrido e auto-destrutivo, logo depois da ingestão, por tal modo que aquilo que retira da leitura será uma pálida amostra literária face ao seria o proveito de tudo quanto havia lido.

Procurei no google (às vezes o Dr. Google até sabe de cenas). Nada de explicações semânticas, só mesmo o uso da expressão com sentido similar.

Além de absurda, a metáfora é muito infeliz.

*in «Desamigados - ou como cancelar amizades sem carregar no botão» (2021, Tinta da China)

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