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Os Heterónimos da Peçonha

Os Heterónimos da Peçonha

15
Set21

Das sessões no passado recente 4

rltinha

Estas duas belas longas metragens brasileiras estão diponíveis no RTP Play. Aproveitem.

2021-09-15 A Vida Invisível.jpg

«A Vida Invisível» (2019, Karim Aïnouz)

«Vislumbra-se uma harmoniosa sensualidade dentro do espaço confinado que é o ecrã, uma sincronia entre figuras e cenário. Uma melodia dos organismos vivos: os corpos e a natureza rimando, acompanhando-se mutuamente, nas fulgurâncias e nos ocasos, nos nascimentos e nas mortes, no fulgor e no apodrecimento.

(...) com este filme, um cineasta apresenta-se com tonalidades de historiador e de arqueólogo, vibrações que são transmitidas aos corpos e gestos de personagens, tal como o calor e a humidade. Estas personagens e estes gestos são o resultado de um levantamento da história da vida privada do Rio de Janeiro.»

2021-09-15 Bacurau.jpg

«Bacurau» (2019, Juliano Dornelles, Kleber Mendonça Filho)

«Para quem quiser ver, está tudo no genérico, naquele majestoso zoom do espaço sideral para o interior pernambucano ao som de Gal Costa cantando Objecto não identificado de Caetano Veloso. É uma explicação e um aviso das duas horas que se seguem, filhas espiritual da geleia geral do tropicalismo mas também do vanguardismo vale-tudo de Glauber Rocha (e se há Glauber aqui, Deus meu): é Spielberg, é Carpenter, é Tarantino, é Hawks, é western-spaghetti-feijoada com candomblé ácido e sopa de coco, é o Brasil como enorme caldeirão de culturas e experiências, sempre descontraído e vai-com-os-outros até ao momento em que é preciso marcar posição – e aí, gente, ninguém o pára.»

 

Citações retiradas de artigos publicados no suplemento Ípsilon, do jornal Público.

08
Set21

Das bulas que justificam bulas com decreto de excomunhão

rltinha

2021-09-08 Bertrand.jpg

Deparei-me com este segmento numa mensagem electrónica periódica da Bertrand (a qual abria com a injúria de me sugerir a aquisição do novo livro de Miguel Sousa Tavares).

A ideia de biblioterapia não é nova, mas este exemplo é todo um tratado de urgência em expulsar da Ordem dos Farmacêuticos Literários o profissional que criou a bula. 

Lobo Antunes pegou num recorte de realidade absolutamente torpe, mesquinho, vil, de uma empáfia criminosa atroz, e deu-lhe a grandeza humana, sublimidade e complexidade que só um excelso ficcionista poderia conceber. 

Todos os campos desta bula resultam de uma edição feita a pensar nas vendas e zero no que um leitor de ficção que tenha uma estrutura encefálica funcional (capaz de mais do que mera sorvedura de enredo) irá retirar da obra.

Façam isto com aquela «literatura» dos sacos de organza, que quem a adquire só quer entreter-se um bocado e não é propriamente um leitor de causas que se bula com bulas e lamente que as bulas com decretos de excomunhão nunca se apliquem a quem merece tal opróbrio.

 

06
Set21

Das bitaitadas literárias 2

rltinha

IMG_20210906_162025_112.jpg

A autoconfiança do homem branco é fenómeno antigo com vocação de futuro. Esta «jovem» promessa assim o comprova.

Ungida por uma certa «facção séria»/«fora da norma» de amantes da palavra escrita, cá surge a obra que - e poderei estar em erro, só duvido mesmo muito que esteja - uma mulher da mesma idade não conseguiria fazer editar. Primeiro, por contar com um escrutínio maior sob todas as perspectivas (incluindo a interior), depois, por lhe faltar empáfia bastante, por fim, pela ausência de claque de apoio que para estas coisas «experimentais» reserva crédito aos cavalheiros.

Assim, temos um exercício versejado de desorientação peneirenta feita rumo reservado aos iniciados, seguido de enumerações armadas ao pingarelho em que todas as notas com ideias magníficas à mesa do café surgem compiladas (ora entre vírgulas, ora entre dois pontos, porque vanguarda e as cenas), insuflando uma narrativazita Bolaño série bifana & copo de três a fingir que viu mundo no Portugal dos Pequenitos.

Escrita de adolescência tardia, num onanismo permanente em resposta a um entumescimento de ego que chega a ser embaraçoso testemunhar. Amplo de forma no artifício, preparando uma deflagração com a vacuidade como resultado.

Nas palavras que em pp. 106 se podem ler: «essas reclusões e esses cortes abruptos no discurso nunca enganaram ninguém, tanta mania de ser diferente, shell shockzinho de arrabalde»

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