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Os Heterónimos da Peçonha

Os Heterónimos da Peçonha

08
Fev22

Das vilanias auto-anunciadas

rltinha

O senhor Douglas Wolk virou um número absurdo* de issues Marvel e escreveu o «All of the Marvels: A Journey to the Ends of the Biggest Story Ever Told» relatando a sua experiência em forma de guia, um instrumento criado para auxiliar todos aqueles que sejam suficientemente incautos e intrépidos para se submeterem à insanidade do universo Marvel.

Naturalmente que a blogueira de serviço não se fez rogada ao desafio feito pelo senhor Wolk, lendo por estes dias o «Fantastic Four Annual (1963) #6» (1968.11.01, Stan Lee, Jack Kirby). Sim, por estes dias. É que, não tendo tal comic dimensão que justifique a perduração da leitura por mais do que uma só jornada, a sua intensidade hiper-explicativa e densidades factuais pouco mais sólidas do que «porque ciência» não estão feitas para a ténue forragem de um estômago mais fraco, sobretudo um que anda habituado a dietas de qualidade superior.

Não obstante a violência do regresso ao Marvel 60's/70's, importa conhecer as histórias de origem e criar uma porta de entrada para tais universos, num esforço preparativo necessário, uma recruta essencial para levar aquela missão a bom termo.

Aliás, títulos como este «Fantastic Four Annual (1963) #6» chegam a ser muitos bons nos seus pontos péssimos, provando que o universo Marvel será tão bom quanto a capacidade de aceitação do absurdo e do ridículo por parte dos seus leitores. Atente-se neste vilão, o Annihilus, que é rapidamente enxertado a... aniquilar, pois claro!, e logo se manifesta:

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Há que amar esta paragem do hiper-poderoso vilão para olhar de frente no painel, quebrando a quarta barreira e cilindrando todos os conceitos de ridículo, auto-anunciando-se - mais uma vez - triunfante. É também pelas gargalhadas dadas à conta destes adornos de época que uma pessoa se faz à escalada da montanha Marvel.

 

*27.000, mais coisa, menos coisa.

08
Fev22

Das leituras à pála da cooperativa

rltinha

Movidas pelo amor à nona arte e pelos encantos do colectivismo, quatro alminhas conjugaram esforços e erigiram uma belíssima cooperativa cujo objecto é ler a vulgarmente conhecida como Banda Desenhada. Estes foram os primeiros títulos que li à conta da cooperativa, e aqui partilho os respectivos bitaitanços.

 

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«Dylan Dog: O Velho que Lê» (Fabio Celoni, Angelo Stano)

A arte de Fábio Celoni, só por si, já valia a pena. Mas neste noir fantástico-literário notavelmente bem narrado, gera sucessivas páginas a comprovar a máxima de William Kuskin: «The page is a poem» .
Como complemento há o mini episódio «A Pequena Biblioteca de Babel» inspirado na obra de Borges, um complemento jeitoso para este volume. 

 

«Um Cowboy no Negócio do Algodão» (Achdé, Jul)

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Um jeitosíssimo desvio do cowboy solitário pelo(a) Luisiana, com os deliciosos Dalton no seu encalço, o marshall Bass Reeves à cata dos Dalton, e os estercos ensacados sob a forma de KKK a praticar os crimes necessários para se sentirem os maiores de sua rua.
E é aqui que entra a pedagogia de modo lúdico para pequenitos e mais graúdos, expondo o racismo naquilo que é: violência pela cor da pele.
Um repasto sequencial à altura daquele com que no epílogo são agraciados os crocodilos, mas de muito melhor digestão.

06
Fev22

Das realidades da precariedade

rltinha

Foram oito episódios de podcast, mais de oito horas a ouvir um longo trabalho jornalístico do Fumaça:

SEGURANÇA PRIVADA – EXÉRCITO DE PRECÁRIOS
“Exército de Precários” é o resultado de uma investigação de dois anos no interior da segurança privada em Portugal. Nesta série de oito episódios revelamos um setor de precariedade extrema e violência sistémica, largamente financiado pelo Estado.

Os males do neoliberalismo são plúrimos, muitas vezes subtis, mas nem por isso menos destrutivos. E este conjunto de episódios põe a nu muitos desses males e, acima de tudo, a normalização pela via da banalização de linguagem eufemística, destinada a destituir o factor trabalho do seu valor, e a normalizar a prática do lucro assente na violação dos direitos dos trabalhadores como corolário da evidência prática do admirável mundo novo dos cortes nas folhas de cálculo, isentos de preocupações humanas.

A dada altura são revelados os números dos «ganhos» do Estado com a contratação a privados da prestação de «serviços» (trabalho prestado por pessoas com vínculo de trabalho subordinado por conta de privados e não do Estado, mas suprindo necessidades permanentes do Estado). Na folha de cálculo os valores são vastos.

O que não é mencionado depois é a profunda miséria humana em que assentam esses «ganhos».

Lucra o Estado com:

- a precarização dos vínculos laborais dos trabalhadores;

- a violação de direitos laborais dos trabalhadores tornada possível pela precariedade, que os coloca em posições negociais ainda mais frágeis, quer pela fragilidade do vínculo, quer pela baixa remuneração;

- o sofrimento das famílias desses trabalhadores, pois que as condições de trabalho afectam profundamente a saúde física e mental dos trabalhadores, e a baixa remuneração afecta praticamente todos os aspectos da vida dos respectivos agregados familiares;

- a competição entre privados pelo primeiro lugar nos concursos públicos (erigida nos baixos preços, os quais são possíveis em razão dos pontos anteriores).

Ou seja, o Estado, primeiro responsável pelo bem estar dos seus cidadãos, lucra com a degradação dos trabalhadores que suprem as necessidades permanentes do Estado. «Lucra» com o mal que é feito, com o seu pleno conhecimento (cf. estes 8 episódios, que são públicos e de livre acesso), a um grupo de cidadãos mais vulneráveis do que aquele com o qual o Estado contrata a «prestação de serviços» para supressão de necessidades de mão de obra permanentes do sector público.

Aos profissionais forenses deve pesar a consciência quando entram num tribunal, pois parte de quem lá trabalha todos os dias integra este exército de precários. Gente que é explorada em nome do lucro privado feito em contratação com o Estado.

Aos encantados com as propostas de enriquecimento desta onda libertária designada «Iniciativa Liberal», eis o que defendem: o profundo mal dos muitos para benefício de uns poucos, a «riqueza» que assenta na famosa questão:

«E eu pergunto aos economistas-políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico.» Almeida Garrett

E é pelo inalienável direito do rico a tributar menos que se batem estes bravos.

 

28
Dez21

Das bitaitadas literárias 10

rltinha

20211226 Joseph Roth.jpg

Excluindo a tendência para criar diálogos com exclamações que melhor se quedariam declarações, a escrita de Joseph Roth merece todos os elogios que de um modo geral povoam as críticas ao seu trabalho. Esta curta novela é um bom exemplo do mencionado supra.

Em pouquíssimas páginas todo um universo particular se apresenta ao leitor, levando-o na improvável entrega de Fallmerayer ao desejo que uma aleatoriedade plantou naquela que, até então, era uma existência regrada no espartilho das expectativas alheias. E sim, há a tal «história de amor impossível», a perseverança de Fallmerayer, e todos os lugares comuns.
Mas o que li de verdadeiramente extraordinário foi o epílogo, um «sopapo narrativo» como já não sofria desde as últimas páginas de «A Montanha Mágica» (ainda que numa escala necessariamente menor), e quem leve consciência de classe para esta leitura certamente que também o perceberá.
Sublime.

22
Dez21

Das bitaitadas literárias 9

rltinha

20211222 Sadeq Hedayat.jpg

Muito me surpreendeu, depois de me forçar a ler rapidamente o livro, (animada do pragmatismo que emprego na higienização dos wcêzinhos deprimentes da gataria quando por lá deixam instalação nauseabunda), em ver opiniões positivas sobre ele, sendo estas emitidas por gente com idade superior aos impressionáveis 16 anos, idade própria para fascínios com palermices sonho/realidade, doença mental/realidade, e achar que são bué originais.


Misógino e muito parvo, é a caracterização que penso melhor servir a este texto que tem uma só virtude: a de ser curto.

Sob a capa de fantasia macabra e entre a meandrada da modificação de termos identitários na progressão/regressão narrativa, o que temos é um exercício adolescente de uma escrita que nada traz de novo nem relata mais do que notas preguiçosamente dispersas contendo obsessões e ódios de estimação travestidos de originalidade aquém do patamar qualitativo de um mediano jornal escolar, em desavergonhada glutonia por (imerecida) atenção.

20
Dez21

Das bitaitadas literárias 8

rltinha

20211220 Os Anos.jpg

Imagine-se a concretização literária de uma daquelas cenas-cliché que o (mau) audiovisual usa para ilustrar a vida inteira que passa pela mente do moribundo, mas sem nada de repreensível, antes fazendo um exercício extraordinário e particular de um percurso simultaneamente singular e genérico a toda uma geração.

Lê-se como quem respira  esse fôlego de vida. Volvida. Pré-olvidada.

20211220 Citação.jpg

(Ao longo da leitura fui adensando a certeza de este livro ser «a cara» de uma muito, muito querida amiga que já não vive. Tive a amargura da impossibilidade da partilha, mas vivi o contentamento de nutrir a minha memória afectiva.)

19
Dez21

Das sessões no passado recente 11

rltinha

20211219 A Christmas Story.jpg

(«A Christmas Story» de Bob Clark, 1983)

Uma comédia infanto-natalícia, de época, na linha de «Malcolm In The Middle» mas com uma estrutura digna. A sequência com o Pai Natal do centro comercial é uma maravilha.

20211219 The Nightmare Before Christmas.jpg

(«The Nightmare Before Christmas» de Henry Selick,1993)

Falta-me a pacoviedade encantada e armada aos cucos cuja zénite se alcança na fase mais tola da adolescência - a dos fascínios góticos - para ainda ter pachorra para aturar as obsessões do Tim Burton.

Revi apenas por obrigação cinéfila.

Podia ter sido pior.

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(«The Shop Around the Corner» de Ernst Lubitsch, 1940)

Os clássicos raramente desiludem. Este, que para mim era ainda inédito, foi um regalo.

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(«Cash on Demand» de Quentin Lawrence, 1961)

Dos mais improvavelmente natalícios filmes que vi neste Dezembro. Tão bem feito que nem parece ter apenas pouco mais de uma hora, cumprindo a medida certa de tudo, sem dar passos maiores do que a perna.

19
Dez21

Das bitaitadas gráficas

rltinha

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(«Batman: Noël» de Lee Bermejo, DC Comics, 2011)

Também sob a temática natalícia, mas sem calendarizações diárias, li esta belíssima adaptação de «Um Conto de Natal» de Charles Dickens que, não obstante pegar numa narrativa mais que conhecida, faz dela uma fábula de Natal original e cativante.

Lee Bermejo faz um trabalho notável e a coloração não lhe fica atrás. Quanto ao lettering é que não acompanho as opiniões favoráveis. Eu sou míope, estou-me tão nas tintas para as belezas como a minha visão para o que fica mais distante, se a legibilidade for afectada o trabalho é mau. 

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