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Os Heterónimos da Peçonha

Os Heterónimos da Peçonha

19
Jul22

Das bitaitadas literárias 13

rltinha

2022.07.19 Dickens.jpg

Um romance socialmente empenhado, denunciando, além da pobreza, a miríade de desgraças pessoais emergentes de tribunais morosos e burocráticos, olvidados da boa administração da justiça, devorando quem e o que cai no objecto dos processos.
Dickens é particularmente feliz na refinada ironia descritiva de tipos sociais. Para tudo o mais (a trama) perdi há muito as sensibilidades desejáveis.

11
Jul22

Das bitaitadas literárias 12

rltinha

2022.07.11.jpg

Mais um álbum duplo de Armazém Central e, aqui chegados, os fãs bem podem regozijar-se. Um par de de volumes que capitalizam na construção narrativa anterior, com as personagens a agir «fora de si» (ou dentro, depende de quanto realmente se observou no crescimento delas).
Sem cair em facilidades moralistas ou excessos para chocar, há mais uma convulsão na comunidade de Notre-Dame-des-Lacs e sobra a vontade de lá regressar.

17
Jun22

Das bitaitadas literárias 11

rltinha

2022.06.16 Mitenka.jpg

No Yoknapatawpha do Mississipi de Faulkner, Addie Brunden ocupa o leito de morte enquanto o filho mais velho lhe talha as tábuas do caixão, precipitando a morte de Addie a sua última viagem, que tem por obstinado destino Jefferson, lugar do outro lado de um rio extravasado em torrentes que levaram as pontes que asseguravam travessias seguras.

Quinze vozes narrativas em 59 capítulos de angustiada culpa, perdição, e expiação. 

Poderoso, pungente, perfeito.

16
Jun22

Da acumulação sublimada

rltinha

Guardo, ainda, no frigorífico

A garrafa de «Oralade»

Que trouxe com a Plimpie

Na última vez que a tive a viver comigo.

Durante dois dias

Tentei agarrá-la à vida, e a mim,

Forçando-lhe seringas daquele alimento,

Assim a torturando como prova do meu afecto e dedicação.

 

O mal que a devorava venceu -

Como vence sempre -

E à Plimpie feita cinza

Sobrevive a esperança líquida

Que a minha compulsão

Acumuladora

Ali mantém.

 

Lixo refrigerado.

08
Fev22

Das vilanias auto-anunciadas

rltinha

O senhor Douglas Wolk virou um número absurdo* de issues Marvel e escreveu o «All of the Marvels: A Journey to the Ends of the Biggest Story Ever Told» relatando a sua experiência em forma de guia, um instrumento criado para auxiliar todos aqueles que sejam suficientemente incautos e intrépidos para se submeterem à insanidade do universo Marvel.

Naturalmente que a blogueira de serviço não se fez rogada ao desafio feito pelo senhor Wolk, lendo por estes dias o «Fantastic Four Annual (1963) #6» (1968.11.01, Stan Lee, Jack Kirby). Sim, por estes dias. É que, não tendo tal comic dimensão que justifique a perduração da leitura por mais do que uma só jornada, a sua intensidade hiper-explicativa e densidades factuais pouco mais sólidas do que «porque ciência» não estão feitas para a ténue forragem de um estômago mais fraco, sobretudo um que anda habituado a dietas de qualidade superior.

Não obstante a violência do regresso ao Marvel 60's/70's, importa conhecer as histórias de origem e criar uma porta de entrada para tais universos, num esforço preparativo necessário, uma recruta essencial para levar aquela missão a bom termo.

Aliás, títulos como este «Fantastic Four Annual (1963) #6» chegam a ser muitos bons nos seus pontos péssimos, provando que o universo Marvel será tão bom quanto a capacidade de aceitação do absurdo e do ridículo por parte dos seus leitores. Atente-se neste vilão, o Annihilus, que é rapidamente enxertado a... aniquilar, pois claro!, e logo se manifesta:

2022.02.08 03.jpg

Há que amar esta paragem do hiper-poderoso vilão para olhar de frente no painel, quebrando a quarta barreira e cilindrando todos os conceitos de ridículo, auto-anunciando-se - mais uma vez - triunfante. É também pelas gargalhadas dadas à conta destes adornos de época que uma pessoa se faz à escalada da montanha Marvel.

 

*27.000, mais coisa, menos coisa.

08
Fev22

Das leituras à pála da cooperativa

rltinha

Movidas pelo amor à nona arte e pelos encantos do colectivismo, quatro alminhas conjugaram esforços e erigiram uma belíssima cooperativa cujo objecto é ler a vulgarmente conhecida como Banda Desenhada. Estes foram os primeiros títulos que li à conta da cooperativa, e aqui partilho os respectivos bitaitanços.

 

2022.02.08 01.jpg

«Dylan Dog: O Velho que Lê» (Fabio Celoni, Angelo Stano)

A arte de Fábio Celoni, só por si, já valia a pena. Mas neste noir fantástico-literário notavelmente bem narrado, gera sucessivas páginas a comprovar a máxima de William Kuskin: «The page is a poem» .
Como complemento há o mini episódio «A Pequena Biblioteca de Babel» inspirado na obra de Borges, um complemento jeitoso para este volume. 

 

«Um Cowboy no Negócio do Algodão» (Achdé, Jul)

2022.02.08 02.jpg

Um jeitosíssimo desvio do cowboy solitário pelo(a) Luisiana, com os deliciosos Dalton no seu encalço, o marshall Bass Reeves à cata dos Dalton, e os estercos ensacados sob a forma de KKK a praticar os crimes necessários para se sentirem os maiores de sua rua.
E é aqui que entra a pedagogia de modo lúdico para pequenitos e mais graúdos, expondo o racismo naquilo que é: violência pela cor da pele.
Um repasto sequencial à altura daquele com que no epílogo são agraciados os crocodilos, mas de muito melhor digestão.

06
Fev22

Das realidades da precariedade

rltinha

Foram oito episódios de podcast, mais de oito horas a ouvir um longo trabalho jornalístico do Fumaça:

SEGURANÇA PRIVADA – EXÉRCITO DE PRECÁRIOS
“Exército de Precários” é o resultado de uma investigação de dois anos no interior da segurança privada em Portugal. Nesta série de oito episódios revelamos um setor de precariedade extrema e violência sistémica, largamente financiado pelo Estado.

Os males do neoliberalismo são plúrimos, muitas vezes subtis, mas nem por isso menos destrutivos. E este conjunto de episódios põe a nu muitos desses males e, acima de tudo, a normalização pela via da banalização de linguagem eufemística, destinada a destituir o factor trabalho do seu valor, e a normalizar a prática do lucro assente na violação dos direitos dos trabalhadores como corolário da evidência prática do admirável mundo novo dos cortes nas folhas de cálculo, isentos de preocupações humanas.

A dada altura são revelados os números dos «ganhos» do Estado com a contratação a privados da prestação de «serviços» (trabalho prestado por pessoas com vínculo de trabalho subordinado por conta de privados e não do Estado, mas suprindo necessidades permanentes do Estado). Na folha de cálculo os valores são vastos.

O que não é mencionado depois é a profunda miséria humana em que assentam esses «ganhos».

Lucra o Estado com:

- a precarização dos vínculos laborais dos trabalhadores;

- a violação de direitos laborais dos trabalhadores tornada possível pela precariedade, que os coloca em posições negociais ainda mais frágeis, quer pela fragilidade do vínculo, quer pela baixa remuneração;

- o sofrimento das famílias desses trabalhadores, pois que as condições de trabalho afectam profundamente a saúde física e mental dos trabalhadores, e a baixa remuneração afecta praticamente todos os aspectos da vida dos respectivos agregados familiares;

- a competição entre privados pelo primeiro lugar nos concursos públicos (erigida nos baixos preços, os quais são possíveis em razão dos pontos anteriores).

Ou seja, o Estado, primeiro responsável pelo bem estar dos seus cidadãos, lucra com a degradação dos trabalhadores que suprem as necessidades permanentes do Estado. «Lucra» com o mal que é feito, com o seu pleno conhecimento (cf. estes 8 episódios, que são públicos e de livre acesso), a um grupo de cidadãos mais vulneráveis do que aquele com o qual o Estado contrata a «prestação de serviços» para supressão de necessidades de mão de obra permanentes do sector público.

Aos profissionais forenses deve pesar a consciência quando entram num tribunal, pois parte de quem lá trabalha todos os dias integra este exército de precários. Gente que é explorada em nome do lucro privado feito em contratação com o Estado.

Aos encantados com as propostas de enriquecimento desta onda libertária designada «Iniciativa Liberal», eis o que defendem: o profundo mal dos muitos para benefício de uns poucos, a «riqueza» que assenta na famosa questão:

«E eu pergunto aos economistas-políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico.» Almeida Garrett

E é pelo inalienável direito do rico a tributar menos que se batem estes bravos.

 

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